Quando
o presidente Lula, em seu discurso de despedida da
presidência do Brasil, falar sobre os programas
habitacionais, ele certamente dirá, com o seu jargão
habitual, “que nunca antes na história desse país se
construiu tantas casas”. E a afirmação será
corroborada por todos os segmentos envolvidos no setor
de construção civil. Agentes financiadores,
indústrias, proprietários de lojas de materiais para
construção, empreiteiros, engenheiros e arquitetos e
aqueles que trabalham nas obras reafirmam a provável
fala do presidente: o ramo vive um dos melhores momentos
dos últimos anos.
O
grande impulso foi dado no final de 2008, no ápice da
última grande crise econômica mundial. Para combater a
recessão no Brasil, entre uma série de medidas, o
governo federal lançou um grande pacote de benefícios
que atendeu diretamente o setor habitacional. Fato este
que desde então tem como símbolo maior o programa
Minha Casa Minha Vida. O resultado é que somente em
2010, a Caixa Econômica Federal (CEF) financiou em
torno de 1 milhão de novas residências em todo o
país, número que deve dobrar em 2011.
Como
consequência, o setor vive um momento de grande
aquecimento, tanto é que até hoje ocorre falta de
mão-de-obra para atuar nas construções. Pedreiros,
pintores, encanadores, eletricistas, entre outros, hoje
são profissionais altamente requisitados.
O
mesmo ocorre em Marechal Cândido Rondon. O pedreiro e
pintor Joacir Lucas Almendana, 28 anos de idade e há 13
trabalhando no setor, garante que o momento é bastante
positivo, tanto que tem trabalho programado até o final
de 2011. Ainda assim, várias pessoas estão
requisitando-o. “Nos últimos dias, três pessoas
vieram até aqui na obra pedir se eu não poderia pegar
um serviço. Está faltando mão-de-obra”, assegura.
Quem
também destaca o bom período é o armador de ferragens
Júlio César da Silva, que há 11 anos atua na
construção civil. Feliz da vida ele diz que além de
ter mais trabalho, a remuneração também melhorou.
Sobre as oportunidades criadas, principalmente em 2010,
declara: “pode melhorar ainda mais, mas não dá pra
reclamar. Se queixar numa hora dessas é até pecado”
Na
Agência do Trabalhador do município, Gilson Frank, que
atua no setor de intermediação de mão-de-obra,
informa que a procura é tamanha por profissionais da
construção em toda a região que construtoras de
outras cidades estão atrás de trabalhadores
rondonenses. “A intermediação no setor está melhor
do que outros anos. A oferta de emprego cresceu
bastante, mas a mão-de-obra qualificada é que está
escassa. Quem tem a profissão está trabalhando”,
destaca.
Oportunidade
Elói
Eckstein, proprietário da construtora Baseforma e
diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil
do Oeste do Paraná, menciona que a falta de
mão-de-obra está obrigando os empregadores a
realizarem cursos de qualificação. Ele comenta que
dois de seus funcionários estão participando de um
curso em Toledo. Para o ano que vem, também está
previsto um curso de pedreiro para Marechal Cândido
Rondon. “Existe dificuldade para encontrar gente
disponível. Há falta de mão-de-obra”, afirma.
A
necessidade de trabalhadores para o setor é tamanha que
em centros maiores até mesmo mulheres estão se
profissionalizando neste ramo, tão identificado com o
sexo masculino. De acordo com Elói, as mulheres estão
sendo requisitadas principalmente para os serviços de
acabamento.
“As
linhas de crédito, com juros baixos e subsídios,
aliadas à estabilidade econômica, favorecem muito. Há
17 anos no ramo, este é um dos melhores momentos para a
construção civil em geral. Sempre teve épocas boas,
mas nunca como agora”, garante o empresário.
Porém,
ele lamenta que poucas pessoas estejam dispostas a se
profissionalizar no setor. Na opinião de Elói, “o
jovem com 18, 19 anos prefere trabalhar em escritório,
mesmo ganhando menos. Só este ano, o salário de
trabalhadores em construção civil teve um aumento
médio de 17% na região. Qual a categoria que teve esse
aumento?”.
Elizeu
Márcio dos Reis (Tadeu), proprietário da Tadeu
Materiais de Construção, explica que a sua empresa
também tem trabalhado no sentido de qualificar
mão-de-obra para o setor. Ele lembra que no ano
passado, em parceria com a prefeitura e uma indústria
de tubos e conexões, ajudou a promover um curso
profissionalizante de encanador, que formou uma turma de
18 pessoas. Dessas, segundo Tadeu, 14 terminaram os
estudos e dez hoje estão trabalhando na nova
profissão.
Segundo
o empresário, seria importante que houvesse incentivos
maiores para que mais cursos profissionalizantes fossem
realizados visando a oferecer novas oportunidades de
emprego às pessoas e também atender a necessidade do
setor, ainda mais que para 2011 a expectativa é o setor
continuar crescendo.
Quem
também está otimista é Jair Wagner,
sócio-proprietário da Realize Materiais de
Construção. Ele explica que a expectativa nos grandes
centros é das melhores para 2011 e a tendência é que
o mesmo aconteça na região. “Em 2010 não temos do
que reclamar. O programa Minha Casa Minha Vida
beneficiou muito o mercado. Pessoas que moravam de
aluguel ou com os pais construíram a casa própria.
Para o próximo ano a tendência é continuar do jeito
que está ou melhorar. Acreditamos que os primeiros seis
meses do ano serão muito fortes”, prevê Jair.
CEF
Toda
essa euforia se justifica pelos números apresentados
pela Caixa Econômica Federal (CEF). De acordo com Ilto
Bendo, gerente geral da agência rondonense, em 2010
foram liberados no município em torno de 450
financiamentos para habitação, enquanto que no ano
passado foram cerca de 230. A maior parte deles através
do programa Minha Casa Minha Vida, que como atrativo
principal proporciona subsídios e juros mais baixos
para aquisição de imóveis novos ou para construções
de até R$ 80 mil, desde que o interessado tenha renda
de até R$ 2,5 mil.
Conforme
Ilto, na hora de financiar a moradia os interessados
precisam ter bastante prudência e fazer bem o
planejamento. O gerente orienta as pessoas a financiarem
uma casa de acordo com necessidade e disponibilidade
financeira. Ele revela que existem situações em que o
interessado dá entrada no projeto para se enquadrar no
Minha Casa Minha Vida para se beneficiar dos subsídios
e juros menores, mas vai construir uma casa que não
atende a necessidade da família. “Depois, daqui um ou
dois anos, precisa ampliar a casa. As pessoas têm que
ter uma moradia adequada. E as condições dos outros
programas habitacionais também estão excepcionais”,
explica.
Ilto esclarece que é
importante que as pessoas se preparem com antecedência
para financiar a casa, começando a economizar antes
mesmo de dar entrada no pedido junto à CEF . “Muitos
querem financiar 100% do imóvel e são poucas as
situações em que o banco pode fazer isso. Geralmente,
ele financia 80% ou, dependendo do caso, até 90%”,
informa. Outra ponderação é para quem tem outros
financiamentos, como carro e moto, que acabarão
limitando a capacidade de financiamento para
habitação: “quando alguém opta por constituir uma
unidade familiar, tem que priorizar algumas coisas, não
pode ter tudo. O momento é bom para realizar o sonho da
casa própria. Então, tem que analisar se é mais
importante financiar um veículo ou deixar de pagar
aluguel e ter a casa, por exemplo. Prudência é o que a
gente mais pede para as pessoas”.